Em qualquer começo de relacionamento as pessoas acabam por se envolver de forma a criar expectativas e desejos sobre como o outro possa ser. Ou seja, cria-se uma expectativa em que a idealização do outro sem defeitos ou problemas é sempre comum.
Esse processo está diretamente relacionado ao mundo de elaboração pessoal. Traduzindo: as fantasias e anseios que cada um estabelece em relação àquilo que se espera da pessoa amada, ou seja, “como desejo que essa pessoa seja no cotidiano, no relacionamento, nas demonstrações de afeto, carinho, paixão... enfim, o perfil que se cria na expectativa de que a outra pessoa preencha ou atenda a todas as necessidades e idealizações.
Movidos pela paixão, impulsos e desejo, a pessoa amada é vista como perfeita e maravilhosa sem que os defeitos ou diferenças sejam percebidos e considerados. Durante um período inicial isso é comum e até importante para um maior envolvimento e aprofundamento dos laços, porém não se pode ou não é ideal que se perpetue no relacionamento, pois senão pode-se criar um abismo entre o que se deseja e idealiza, e o que efetivamente se vive.
Acontecem problemas ou conflitos quando a mulher acaba ignorando sinais ou características importantes manifestadas pelo parceiro e passa por cima deles em favor de manter a figura idealizada e que pode não ser nada do que o namorado ou mesmo marido efetivamente seja.
Se acontecer da idealização ficar mais forte do que a realidade, corre-se o risco de viver um relacionamento ilusório e irreal, e que certamente não durará. Em algum momento a mulher perceberá ou não terá suas expectativas ou desejos preenchidos, provocando grande decepção e frustração.
Por outro lado manter a idealização pode ser também de extrema importância para que os dois possam estabelecer ou manter um canal de comunicação destinado às mudanças, que são fundamentais em qualquer relacionamento. Pode-se não atingir plenamente a condição idealizada ou perfil tão sonhado, mas chegar muito próximo traz muita motivação e satisfação para o casal.
Pensar em um bom relacionamento envolve disposição e motivação para mudanças, sempre, e, sem dúvida, a idealização é uma elaboração pessoal importante para um primeiro passo. Quando se compartilha essas idealizações no relacionamento, cria-se a abertura para a inovação e a surpresa e por consequência ambos nutrem-se de desejo e motivação.
A idealização é sempre importante num processo de desejo, operacionalização e prazer, mas não podemos ficar fixados apenas em nossas fantasias, mas sim viabilizá-las considerando todo o contexto de realidade e possibilidades. Nesse sentido sempre se enriquece o repertório em tudo que possa ser vivido no relacionamento, inclusive estimulando a criatividade para a interação na vida a dois.
Homens e mulheres se complementam para garantir a continuidade da humanidade na face da terra. Tal continuidade só se faz possível, ainda, mediante a contribuição de cada um dos gêneros humanos. Hoje, cada parcela contributiva só é, ainda, possível através do contato sexual ou da intervenção científica de inseminarão artificial.
Averiguando-se esse processo como de fato ocorre, não se compreende que qualquer tipo de afetividade lhe seja inerente.
Uma família se forma por laços familiares, quer sejam ou não consangüíneos. No processo de constituição familiar, apenas culturalmente se pressupõe a afetividade. Em algumas culturas o casamento é arranjado, de forma que, em muitos casos, o casal só se conhecerá no dia do casamento, na festa, ou na noite de núpcias. Em outras, como a exemplo da nossa, os indivíduos podem optar pela pessoa com que irá contrair núpcias, o que pode ou não envolver afetividade. Porém, tanto em um caso como no outro, as famílias geralmente se formam, o que prova que também a formação familiar não pressupõe a afetividade nem mesmo para a sua continuidade. O ideal seria que houvessem laços de afetividade para sua formação e continuidade, porém isso nem sempre se observa na prática. A formação familiar se dá, principalmente, pela chegada de membros nem sempre desejáveis, e pela adaptação de uns aos outros dentro deste conjunto. Há uma tendência atual de se compreender como família um grupo de pessoas (a partir de uma dupla) que estabelecem como pré-requisito para sua formação e continuidade o afeto.
Namoros, noivados e relações conjugais hetero ou homo afetivas, nas culturas em que são admitidos a partir da escolha dos indivíduos, pressupõem, quando da espontaneidade, a afetividade entre os envolvidos. Mas, também nessa situação, o afeto não lhes é inerente.
Apenas nas relações de amizade, e não confundir amizade com relações oportunas, se pressupõe o afeto. Sem afetividade a amizade não se inicia, não se estabelece, nem progride. Toda e qualquer outra forma de relação está sempre diante de muitas ameaças e de pouca tolerância, a amizade não. Amigos parecem possuir um dom maior para aceitar o outro como é, para se tornar cúmplice e perdoar.
Pais, irmãos, namorados, esposos e toda natureza de aparentados, vizinhos, colegas de trabalho e etc., que também são amigos, passam mais tempo juntos. Porque gostam da companhia do outro, porque fazem bem ao um ao outro, porque se permitem conhecer por inteiro, e se permitem ser por inteiro. Investe-se, se buscam, se procuram, se sabem e se complementam. Assim são os amigos, e qualquer natureza de relacionamento que se forma sobre esses alicerces torna-se um relacionamento para toda a vida, com obstáculo também, claro, mas, acima de tudo, com superações e aprendizado.
A afetividade não é inerente à coisa alguma, depende de nossa vontade e do nosso desprendimento. Só encontra a afetividade quem a constrói, quem a distribui. É preciso haver a decisão de amar, e a vontade de construir e aprender essa arte no dia-a-dia. Mas, querer amar não é querer ser amado pelos outros. Querer amar é querer amar a partir de si mesmo, é querer dar de si próprio. O relacionamento com sigo mesmo deve ser afetivo, amoroso. E essa amorosidade - como diria a amável Cláudia Pierre - que se inicia em nosso interior, deve ser transmitida, passada, distribuída entre as pessoas de nossos relacionamentos. Iniciar tal processo não é, de maneira alguma, difícil ou impossível. Basta olhar dentro de si e encontrar um ser vivo carente de amor, basta olhar no outro e ver a mesma coisa. E quem se ama, já é amado o suficiente. De forma que pode amar a todos e sempre, sem se preocupar com o retorno dessa decisão e atitude. Porém, tal retorno é absolutamente inevitável. Assim, se conclui que, não importa a natureza de relação na qual se deseja investir, se a decisão for de se estabelecer os laços amigos da afetividade, ela sempre será bonita, feliz, forte e duradoura.
